Em 12 de janeiro de 2022, uma mulher que afirmava ter sido vítima de Corbalan — que se apresentava como David Juan Manuel Yuset, para justificar a história de que era um árabe de Dubai, cidade dos Emirados Árabes Unidos — prestou depoimento na 5ª Delegacia de Polícia da Mulher, em Paulista, município na Região Metropolitana de Recife. Àquela altura, segundo seu relato, ela e o argentino estavam separados havia quatro dias, após um mês de relacionamento. A vítima conta que Corbalan era controlador e possessivo e a ameaçava com uma faca, dizendo: "Você está vendo isso aqui? Se você me trair, eu corto sua cabeça".
A uma certa altura do relacionamento, o estrangeiro começou a se queixar de que não tinha dinheiro e precisava pagar o advogado "que estava cuidando da herança dos pais dele". Com agressividade, relatou a mulher à polícia, David Juan Corbalan a obrigou a entrar no aplicativo do banco e fazer um empréstimo de R$ 14.251,57. O argentino teve de ir duas vezes a duas agências do banco, em Paulista e no bairro de Boa Viagem, em Recife, para conseguir sacar todo o dinheiro, entre os dias 28 e 29 de dezembro de 2021.
A vítima disse aos policiais que esperou por alguns dias o empréstimo ser pago. No entanto, logo após o réveillon, em 2 de janeiro de 2022, o argentino conseguiu mais R$ 200 emprestados para "ir ao consulado dos Emirados Árabes no Rio de Janeiro para resolver questões da herança da família e receber o dinheiro", segundo o depoimento da mulher. À distância, Corbalan continuou mantendo contato com a vítima — e manteve as ofensas e ameaças. Cerca de uma semana depois, bloqueou o celular e cortou qualquer comunicação.
WhatsApp, banco e dinheiro
Aproximadamente um mês depois, o argentino já teria feito outra vítima, desta vez em Alagoas. Em 4 de maio de 2022, uma moradora de Maceió procurou o 2º Distrito Policial no bairro de Jatiúca para contar que tinha sido vítima de David Juan Manuel. De acordo com o relato da mulher, ela se relacionava havia três meses com o argentino — que contava ser "oriundo de Dubai e nascido na Patagônia argentina" — quando, na tarde de 2 de maio, pediu uma carona para um hotel na orla da cidade.
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Naquele momento, David Juan Corbalan já tinha conseguido ficar com o celular da vítima e R$ 490 emprestados pelo filho da mulher, com a alegação de que iria se hospedar no hotel. A alagoana relata que, ao longo daqueles meses, nunca havia visto o namorado trabalhar; ele, porém, tinha lhe pedido dinheiro várias vezes, empilhando um prejuízo de R$ 6 mil.
Em frente ao hotel, descreve a vítima, Corbalan desceu do carro e sumiu no mundo, levando o celular da mulher, com acesso ao seu WhatsApp e ao aplicativo do banco. Não mais respondeu aos contatos — e, relata ela, não pagou o que devia nem a ela, nem às outras pessoas com quem tomou dinheiro emprestado.
'Herdeiro árabe'
A investigação que levou à prisão do argentino, conduzida pelo delegado Ângelo Lages, aponta que Corbalan conquistou a confiança da vítima, utilizando uma identidade falsa e afirmando ser um herdeiro árabe impedido de acessar sua fortuna por causa do bloqueio de seus bens. Com esse pretexto, convenceu a mulher a fazer sucessivas transferências bancárias.
"Que a gente saiba, a primeira vítima que registrou o fato contra ele foi em 2020, aqui no Rio de Janeiro. Depois, ele subiu, foi para o Nordeste, fez vítimas em Pernambuco e em Alagoas. Aí ele voltou para o Rio de Janeiro, onde voltou a fazer vítimas", explica Lages. "Ele se dizia um herdeiro milionário, estaria com os bens bloqueados no mundo árabe, e também seria um chefe de cozinha internacional. Dizia que os pais teriam morrido num acidente aéreo forjado e que ele estaria com os bens bloqueados lá. A partir desse pano de fundo, dessa história, ele ganhava a credibilidade das mulheres e começava a solicitar valores".
Além do prejuízo financeiro, os investigadores apuraram que o argentino aproveitou o período em que a vítima estava internada para uma cirurgia cardíaca para entrar no apartamento dela e furtar joias, eletrônicos e documentos.
As investigações também revelaram que Corbalan utilizava contas bancárias registradas em nome de outras ex-namoradas para movimentar os valores obtidos com os golpes. Segundo a Polícia Civil, ele possui histórico de crimes semelhantes desde 2015 em diferentes estados do país.