A família da saudosa Preta Gil não baixou a guarda e segue firme na batalha por justiça. Mesmo depois que o padre Danilo César fechou um acordo na esfera criminal, os parentes de Gilberto Gil continuam com um processo civil pedindo uma indenização de R$ 370 mil por danos morais, além de uma retratação e reparação social. A briga legal começou por causa de declarações polêmicas do padre, que, em sua defesa, apontou "graves contradições" entre as posturas do religioso em diferentes momentos nos tribunais.
As palavras do padre que causaram a revolta.
Tudo começou em 27 de julho do ano passado, pouco depois da morte de Preta Gil. Durante uma missa transmitida ao vivo pela internet, na Paróquia de São José, na pequena cidade de Areial, na Paraíba, o padre Danilo César usou o púlpito de uma forma chocante. Em vez de consolar, ele zombou da morte da artista, que lutava contra um câncer colorretal e morreu nos Estados Unidos. Não parando por aí, o religioso atacou abertamente religiões de matriz afro-indígena.
Em um trecho que causou grande indignação, o padre disse:
"Gilberto Gil fez uma oração aos orixás, cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?".
A intolerância não ficou restrita aos comentários sobre Preta Gil. O padre também mirou nos fiéis da sua própria região que frequentavam terreiros em cidades vizinhas, como Puxinanã e Pocinhos, ambas na Paraíba. Ele se referiu à fé dessas pessoas como "coisas ocultas" e chegou a desejar que "o diabo levasse" quem praticasse tais crenças, completando que essas pessoas deveriam acordar "com calor no inferno".
O acordo na esfera criminal e o silêncio.
Para escapar de um julgamento criminal, o padre Danilo César assinou, em fevereiro deste ano, um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público Federal (MPF). Esse acordo estabeleceu uma série de medidas educativas, digamos assim.
- Ele teve que pagar uma multa de quase R$ 5 mil, destinada a uma entidade afrodescendente.
- Foi obrigado a cumprir 60 horas de cursos sobre combate à intolerância religiosa.
- A Justiça exigiu que ele escrevesse, à mão, resenhas de livros e documentários focados na cultura afro-brasileira e no racismo, com prazo de entrega até junho.
O acordo ainda incluía a participação do sacerdote em um ato inter-religioso, que contaria com a presença de familiares de Gilberto Gil. No entanto, durante o encontro, que aconteceu em 6 de fevereiro, o padre optou por manter um "silêncio absoluto", sem se manifestar.
A busca por reparação na Justiça Cível
Apesar do acordo criminal, a família de Preta Gil deixou claro que não vai recuar. Eles continuam firmes na ação civil, buscando não apenas a indenização financeira, mas também uma retratação pública e uma reparação social que considerem adequadas. A defesa da família aponta uma clara incoerência na postura do padre, que se calou em um momento crucial após ter sido tão veemente em suas ofensas.
A luta da família de Preta Gil vai além de um caso individual; ela destaca a importância de combater a intolerância religiosa e defender o respeito às diversas manifestações de fé em nosso país.