100 anos: CANHOTO DA PARAÍBA (O gênio do violão)


É de Princesa Isabel

Essa genialidade,

O nosso Chico Soares

Que notou na mocidade,

Que a música essa lhe atrai

Herança vindo do pai

Seresteiro da cidade.

Viveu sua mocidade

Tocando seu violão,

Nas missas, nas serenatas

Cidades da região,

E o que mais admirava

Era o pinho que tocava

Sem mudar de posição.

Como ele era canhoto

As cordas eram ao contrário,

Mas ele para tocar

Trocar não foi necessário,

Com o dom que possuía

Seu dedilhar construía

Algo extraordinário.

De Princesa ele partiu

Pra outra civilização,

Tendo parado em Recife

Veneza dessa nação,

Por lá ficou afamado

E logo foi batizado

De gênio do violão.

Em Recife ele compôs

Muitos choros geniais,

Se apresentava em TV

Nas rádios e nos jornais,

Com seu dom particular

Foi o primeiro lugar

Em diversos festivais.

Recebeu muitos aplausos

Uma aceitação sem fim,

Todo mundo que ouvia

A seu choro dava um sim,

Muitos intelectuais

E entre esses maiorais

Tava Jacob do Bandolim.

Muita sensibilidade

Pra cada composição,

Falava de amor ausente

Do “Choro do Sacristão’,

Da “Menina da Ladeira”

“Corrinha”, “Mulher Rendeira”

Das lembranças do sertão.

Compôs também “Paraíba’

“Reencontro com Paulinho”,

“Pisando em Brasa”, “Com Mais de Mil”

“Escadaria”, “Ta Quentinho”,

Fez “Choro da Madrugada”

Cantou para a namorada

Fez a “Valsa pra Tozinho”.

Com tantas composições

E apresentações em vista,

Sendo manchete em jornal

Televisão e revista,

Ele conheceu Paulinho

Da Viola, rei do chorinho

E também grande sambista.

Com Paulinho da Viola

Tocou no Brasil inteiro,

Muitas vezes em Recife

Não faltava paradeiro,

Fez bonito no Brasil

Lançando “Com Mais de Mil”

Lá no Rio de janeiro.

Ele tocou com Sivuca

Na sanfona soberano,

Com João Bosco, com Luperce

No bandolim veterano,

Cada qual que é mais artista

E ainda tinha na lista

Cesar Camargo Mariano.

Em Princesa todo ano

Ele vinha com vontade

Pra festa da padroeira

Para eventos da cidade,

Revia a família amada

E de cada camarada

Ele matava a saudade.

Tocou com músicos da terra

Com grande predileção,

Manoel Marrocos no sax

Canhoto no violão,

Mostravam muito talento

E nesse acompanhamento

Também deu vez para Dão.

Tocou também com Delano

Com seu trompete afinado,

Muitas vezes em Recife

Onde os dois era instalado,

Tocavam “Pisando em brasa”

Delano era mais de casa

Era um amigo chegado.

Em Princesa muitas vezes

O trompete e o violão,

De Delano e de Canhoto

Na mesma conexão,

Tocava brilhantemente

Seguidos notavelmente

Nas cordas por Damião.

No mundo do choro e valsa

Seu nome ninguém esquece,

Por causa de suas letras

Os dois ritmos se envaidece,

Um gênio sem ter o par

Mas Princesa não soube dar

O valor que ele merece.


Até que um dia terrível

Marcou sua direção,

A saúde se agravou

Tirou a locomoção,

E numa hora agoniante

Um AVC fulminante

Calou o seu violão.


Lhe sepultaram em Recife

Numa comoção geral,

O choro do violão

Se ouviu no seu funeral,

Num ato grande demais

Trouxeram seus restos mortais

Pra sua terra natal.


Francisco Florêncio foi

Quem abraçou o papel,

De requisitar os despojos

Para Princesa Isabel,

Do gênio que fez encanto,

E construir no campo santo

Um enorme mausoléu
Canhoto hoje descansa

Sob os olhares da serra,

Do Gavião que emana

Um bálsamo que nunca encerra,

Ali jaz sem o violão

Sem entender a desatenção

Dos filhos da sua terra.

Canhoto da Paraíba

A nossa celebridade,

Cantou Princesa, seu povo

Os ares dessa cidade,

Mostrou sua arte num pinho

E hoje toca chorinho

Nos palcos da eternidade.


Poeta cordelista;