Na próxima terça-feira (08) se comemora o Dia do Nordestino. Criada há 10 anos, a data foi uma invenção do Legislativo de São Paulo, que naquele 2009 decidiu homenagear o poeta cearense Patativa do Assaré (1909-2002) – no centenário de seu nascimento – e, junto com ele, todos os nordestinos. Embora alguns Estados tenham adotado o dia, a comemoração não pegou em Pernambuco. Basta dar uma “googada” na data para aparecer imagens de cactos, chapéus de cangaceiros, trios de forró, matutos desdentados e paisagens da caatinga, como se a região fosse uma só: semiárida, de terra rachada, monocromática (ocre), parada no tempo. Convidada muitas vezes para fazer palestra sobre o Nordeste, a economista Tania Bacelar costuma falar de mudanças e permanências e, nas discussões sobre o que continua igual, ela sempre lamenta essa imagem negativa da região. O retrato percebido hoje ainda se parece com o que Celso Furtado estudou e conseguiu transformar quando criou a Sudene em 1959, mas a verdade é que o Nordeste se transformou apesar das desigualdades.
Durante o governo Juscelino Kubitschek, que tinha como lema 50 anos em 5, o economista Celso Furtado apresentou o relatório do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), intitulado Uma Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste, e o trabalho Operação Nordeste. Nos estudos, que foram as bases para a criação da Sudene, ele defendia que o processo de industrialização do Brasil não poderia ficar concentrado no Centro-Sul (sobretudo em São Paulo), que a seca não era o principal problema do Nordeste e que era preciso acabar com o complexo econômico baseado nos latifúndios gado-algodoeiro em operação no semiárido.
“Mas Celso Furtado enfrentou muita dificuldade para aprovar a Sudene no Congresso Nacional porque as elites nordestinas não queriam saber de reforma. A intenção era manter a indústria da seca e aquela sociedade testamental. Para aprovar foi preciso aderir aos incentivos fiscais (que não estavam nos planos iniciais do economista) e acabou permitindo que as indústrias do próprio Centro-Sul subissem para o Nordeste e que atividades da agroindústria canavieira nordestina, por exemplo, fossem beneficiadas pela Sudene, fazendo com que os mesmos grupos fossem beneficiados pelos recursos”, observa o professor dos Programas de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco e Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Durval Muniz de Albuquerque Júnior, autor do livro A invenção do Nordeste e outras artes.
MUDANÇA
Nas palestras que vem realizando Brasil afora, Tania Bacelar destaca que o Nordeste mudou e que essa transformação começou com Furtado. O complexo gado-algodão foi desmontado por conta da praga do bicudo que dizimou o algodão nos anos 1980 e 1990. Depois, a Embrapa conseguiu desenvolver uma nova semente, mas o ex-presidente Collor abriu a economia e começou a chegar algodão importado. A região também não conseguiu concorrer com a pecuária do Centro-Oeste e o semiárido foi mudando e sendo ocupado por outras atividades mais produtivas, como a fruticultura irrigada nos Vales do São Francisco (PE e BA) e do Açu (RN). O oeste nordestino, que na época de Furtado era uma região pouco habitada, se desenvolveu como uma área de cerrado, com a produção de grãos (soja, milho) transbordando do Tocantins e do Mato Grosso para o nordeste da Bahia e o Sul do Piauí e do Maranhão, sob as mãos de produtores gaúchos. A região foi apelidada de Mapitoba, em referência às iniciais dos Estados produtores. Continue reading
