Nós estávamos vivendo o terceiro ano da grande seca de 1979 a
83. Pessoas como eu, Agustinho e Brasil (nem o chamávamos de ‘Brasil’, ainda),
Valdeci e outros, erámos molecotes de 13, 14 anos de idade. Mas já
acompanhávamos Bernadete, Antonio Pádua, Severina e os mais velhos nas reuniões
que Vanete Almeida e Manoel Santos faziam no Salão Comunitário do Riacho dos
Barreiros. Alguns dos outros, como João Batista e Zezinho perambulavam por São
Paulo a procura do pão.
Falavam-nos de mudanças, da luta contra o peleguismo sindical
que imperava na maioria absoluta dos sindicatos da região, da busca por emergência
para minorar a fome, que era grande, e o povo muito.
Eram poucas as lideranças, e nós, meninos ainda, ouvíamos
atentamente. Alguns, nem tanto, como Agustinho, por exemplo, que só fazia
bagunçar (quem diria!), mas as vozes de Manoel e Vanete enchiam-nos de um ardor
que permearia o nosso futuro e traçaria o nosso destino. Éramos meninos, ainda,
mas já nos incomodava aquela situação.
Da Igreja, vinha a voz forte e estridente de dom Francisco –
nosso Profeta. E padre Caetano, mais padre Egídio (hoje bispo) nos incitavam a
irmos em frente. Primeiro na PJMP (Pastoral da Juventude do Meio Popular),
depois nas CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base), através da qual, conhecemos
(eu, particularmente) a ACR (Ação Católica Rural).
Os tempos eram difíceis. Ainda estávamos no regime de exceção
e a redemocratização só ganharia fôlego alguns anos mais tarde. A Igreja era nosso
refúgio e nossa catequese.
Mas, na cabeça do Pajeú, uma Mulher (assim, mesmo, com “M”
maiúsculo) se tornaria a Primeira a ser presidente de um Sindicato. O Sindicato
dos Trabalhadores Rurais de Itapetim. Era Maria Ferreira de Lima, mas, para
nós, simplesmente DONA LIA. Foi assim que a conhecemos. Foi assim, que a
conheci no Colégio Normal Imaculada Conceição em Serra Talhada, discursando como
coordenadora diocesana da ACR.
De lá para cá, a luta só ganhou força. Foram as lutas pelo
fim do atravessador da goiaba, pelo reconhecimento de melhores condições de
trabalho para os cortadores de cana de Triunfo. Os saques à CONAB e nas feiras
(inclusive em Flores). Depois, a barragem de Itaparica, que extinguiria do mapa
as cidades de Glória e Rodelas na Bahia e Petrolândia em Pernambuco. Já em 1993
e 1998, novas secas, novas lutas. O acampamento na sede da SUDENE, em Recife. E
o surgimento do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais – MMTR, no Sertão
Central (Região de Serra Talhada), o primeiro do gênero no Brasil.
Em todas essas lutas, Dona Lia estava lá. Foi ela que leu a
Tese de defesa das mulheres no Congresso da CONTAG, que defendia espaço para as
mulheres na Confederação dos Trabalhadores na Agricultura. A tese foi aprovada
por unanimidade.
Não dá para contar tudo. Nesse meio têm muitas lutas que eu
não me lembro. Mas aconteceram e Dona Lia sempre fez parte. Não é exagero, é
fato. O Sindicato de Itapetim, foi, por muitos anos, um dos mais combativos da
região. Deve ainda ser. Por que há um legado iniciado com ela há quarenta anos.
Dona Lia nos deixou ontem, a boquinha da noite. Do alto dos
seus 82 anos, manteve a mesma índole, postura e filosofia de vida: defender o
direito dos “sem voz e sem pão”, como diz Padre Zezinho.
Vejo, mesmo que de longe, lágrimas nos olhos de seu neto
Adriano, companheiro de jornada nas CEB’s, professor e catequista. Reclamo-o,
pois, não há porque chorar, não tem motivos para tristeza. Dona Lia é uma
pessoa cercada de luz, e sua aurora iluminou quem esteve próximo a ela. Desnecessário
dizer que ele é privilegiado. Entendo o sentimento do neto, que se refere à Avó
como “Meu espelho”. E é! Para ele, para os demais e para nós. Mas o seu legado
perdurará por muitos anos. Por isso, não vejo por que chorar, exceto pelos
laços sanguíneos.
Dizer que ela foi primeira presidente de um sindicato parece
simplório, mas o tempo era de muita luta, de seca, de domínio masculino em
quase tudo, e, nos sindicatos, principalmente. A mulher era tida como a parte
do marido, e até mesmo a carteira sindical dele valia para ela. Ainda não era
reconhecida como companheira, solidária. O trabalho de casa não contava nas
leis brasileiras para inseri-la como trabalhadora rural, agricultora. Sua voz
não era ouvida. Por isso, a importância dela nesse mar tipicamente masculino,
nesse “mundo de homens”.
De lá para cá, muita coisa mudou. Nós nos tornamos
lideranças. Agustinho, de moleque bagunceiro, foi levado à condição de
presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Flores e o
primeiro, juntamente com Bernadete, a se filiar na Instituição. Adriano
tornou-se liderança comunitária e católica em Itapetim. Isso, só para dar
exemplos. E ela se manteve no mesmo estilo. No mesmo propósito. Não arredou pé
das suas convicções políticas, religiosas, familiares e pessoais. E, nesse
caso, uma indagação: Será que ela não teve motivos para mudar? Quem não os tem?
Vai, Dona Lia. Eu poderia reclamar sua partida numa hora tão
imprópria. Mas do que adianta a senhora viver esses tempos turbulentos que já
batem à nossa porta? Quando a senhora surgiu como liderança sindical e cristã
estávamos vivendo tempos sombrios, a despeito de uma grave seca que dizimou o
Nordeste, como nos contos de Rachel de Queiroz. A seca a senhora viu de novo.
Mas não precisa mais viver dissabores e desagrados.
Nós, de nossa parte, vamos continuar por aqui. Até um dia
encontrá-la na Terra Sem Males e “onde corre leite e mel”, se assim a
merecermos. Do alto de minha ignorância e insignificância humanas, acredito que
a senhora merece, por tudo que fez, por tudo que plantou na terra e em nossos
corações.
Sua parte está pronta. A nossa, ainda estamos construindo,
com falhas, mas com a certeza de tê-la tido como nosso “espelho” para nunca
arredarmos pé de defender o direito à vida, à liberdade, à fraternidade e à
virtude cristã. Marcas de sua existência na Terra.
Saudações, Guerreira!
Professor.