O mundo paralelo da cúpula do PT. Marília perto de ser rifada

A vereadora petista Marília Arraes, que ainda tenta se viabilizar como a candidata do PT ao Governo de Pernambuco, realiza ato neste domingo (20) numa estratégia que desenhou para ocupar espaços e tentar mostrar que o pulso ainda pulsa. A verdade é que a situação de Marília é cada vez mais difícil. E ela sabe disso. Em Brasília, já se fala em martelo batido. Lutar contra o trator das instâncias partidárias e enfrentar velhos caciques é louvável e próprio de quem tem um objetivo muito bem definido, mas é quase sempre uma luta inglória.
Da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Lula, que alimentou enquanto deu o cão de guarda petista aqui em Pernambuco para soprar um bafo quente no pescoço do PSB, é o mesmo que avaliza a retirada da vereadora do páreo. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad deu a senha completa após visitar o ex-presidente nesta semana.
Só não entendeu quem não quis. E quem entendeu fez que não entendeu. As alianças com o PSB deveriam começar a serem finalizadas. Este foi o recado. Mais direto impossível. Costuradas as negociações já estavam faz tempo. Em Brasília, a situação de Pernambuco é dada como resolvida. Agora, a estratégia é definir como fazer. A ideia do PT é mostrar o máximo respeito a Marília durante o anúncio de que ela não será a candidata, se é que é possível falar em respeito neste momento.
Moeda de troca
Enquanto a presidente do PT, Gleisi Hoffman, manteve até certo ponto uma posição proposital de dubiedade, governadores petistas foram liberados e autorizados a negociar livremente. Na política é assim. A comparação da vez pode parecer ridícula, mas acho que ajuda bem na compreensão do desenho. Sabe o álbum de figurinhas? Pronto. Para completar uma página importante, eu preciso de uma figurinha que só você tem. E aí te dou, você completa e, dependendo do autocolante que foi dado, posso olhar o seu bolo e apontar aquelas que quero.
Marília foi essa figurinha rara. Lula a valorizou, escondeu no bolo, segurou e não trocou. Mas também não colou no álbum. Ficou com ela na mão. Agora, parece que chegou a hora da troca. E quem vai colar é o PSB e Paulo Câmara.
Infelizmente, e precisa ser dito, a vereadora caminha para ser usada como a moeda descartável. É sempre a parte mais recorrente e triste da política. Toda vez que há um acordo por cima em ambientes refrigerados, aumenta um pouco a desesperança e expõe aqueles que, por paixão, vontade mesmo, esperança ou inocência política, acreditam que as coisas poderiam ser diferentes. Não é o caso de Marília.
Acreditar que as coisas poderiam ser sempre diferentes nada mais é do que a essência e o motor da militância política.
Acreditar, na verdade, é verbo que aduba a transformação. Toda vez que se joga um cimento nesse adubo potente, a militância e a vontade de transformar morrem um pouco. Isso ajuda a explicar o mundo paralelo em que se meteu a cúpula petista e a total desconexão com o povo.
Mas muitos sabem o barco em que navegam nesse “mar da história para lá de agitado”. Por isso, sabem que, por ordem de segurança, precisam manter os coletes sempre afivelados. É o que geralmente se recomenda para evitar casos de afogamento.
Com os inimigos
Certa vez, escrevi sobre um episódio envolvendo o ex-presidente Lula. Eduardo Cunha havia acabado de se tornar presidente da Câmara dos Deputados. Como parte do plano de maldade, armou pautas-bomba no Congresso para ampliar a crise no governo petista.
Ao mesmo tempo, colocava obstáculos no plano de ajuste fiscal que Joaquim Levy tentava emplacar. Dilma disse que não poderia compor com Cunha porque ele era inimigo. A maior estrela petista, de pronto, soltou a frase, confirmada por três fontes diferentes, que resume bem o personagem político. “A gente tem que compor com os inimigos porque os amigos já estão com a gente.”

E assim o barco seguiu. Bem pesado e cheio de inimigos “necessários”. O resto da travessia a gente já conhece. Infelizmente, gestos como esse que o PT está bem perto de concluir é mais do que esperado. Não existe nada surpreendente, mesmo após o PSB ter sido decisivo na expulsão de Dilma Rousseff, mesmo após os dois principais líderes do PSB local terem apoiado o senador Aécio Neves para a Presidência da República.
“É preciso tirar essa mulher daí”, bradava o prefeito do Recife, Geraldo Julio. Tudo é muito efêmero. A pichação anônima nos muros recifenses dando conta de que “O PT matou Eduardo Campos” já ficou borrada. Ninguém nem consegue mais ler. A fala de Lula dizendo que Paulo Câmara é tudo aquilo que ele não acredita na política se perde ali no grupo da família do WhatsApp.
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Importante dizer que Marília Arraes jogou muito bem o jogo que havia de ter sido jogado. Está jogando ainda, é verdade. Ela sabe que o pragmatismo e a capacidade de criar argumentos de momento para justificar objetivos eleitorais são justamente as raízes da equação que Lula rabisca desde que se tornou presidente do Brasil pela primeira vez. Digamos que é o “conjunto verdade” do PT.
Sexta-feira, com a vinda do governador de Minas Gerais (PT), Fernando Pimentel, ao Recife, onde participou de um encontro com governadores, mais uma senha foi dada. E uma senha muito clara. O PT precisa do PSB lá em Minas Gerais e também em outros estados. E assim as coisas seguem. Isso não é novidade. Estava desenhado faz bastante tempo.
Risco calculado
Marília Arraes, desde o início, sabe o “risco” que corre. É um risco, digamos assim, calculado. Lançou o nome para tentar mostrar que é competitiva e estimular um movimento de fora para dentro. Conseguiu de certa maneira, apesar de não ter aglutinado mais partidos. O esforço da vereadora não é o bastante.
Importante lembrar que ela não perde absolutamente nada. Pode sair ainda como “vítima” do pragmatismo petista e com imagem mais larga após o “esforço feito” em nome da estratégia nacional. Nesse aspecto, foi muito bem. Vai se lançar candidatura a deputada federal e deve ter uma votação bem expressiva.
O plano para afastar Marília, arquitetado por instâncias superiores do partido, está, até o momento, sendo perfeitamente bem sucedido. Verdade que, por precaução, é sempre bom reservar aquela cota de 5% para o imponderável na política. Um aliado da vereadora me contou dia desses, na entrada do cinema, que “eles podem até já ter decidido, mas a gente vai perturbar até o fim”. É por aí. Marília, por enquanto, continua perturbando.
Hoje, às 10h, no Clube Internacional, a vereadora pretende seguir nessa linha de “perturbar” o plano. A tentativa é de mostrar que a militância está com ela. Algumas correntes do PT tentam, nos bastidores, esvaziar o evento.
Independentemente do que ocorra com Marília, é cada vez mais evidente que o PT pernambucano faz tempo perdeu completamente sua conexão com o povo. Tá procurando o sinal do wi-fi até hoje.
A política eleitoral, nestes momentos, também sempre reserva momentos constrangedores e, ao mesmo tempo, divertidos: uma chapa quentinha para o Senado formada por Jarbas Vasconcelos e Humberto Costa.
É, Miguel Arraes de Alencar, no “caminho da perdição” sempre cabe mais gente.
Por João Valadares/OP9
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